Chegou o Outono…
Com ele carregaram-se as nuvens, soprou o hálito de Inverno e derramaram-se chuvas de lágrimas para lavar o chão da poeira do Verão.
Tenho sempre saudades breves das Estações que entram e o Outono é uma aguarela viva na minha história.
Neste dia cinzento lembro-me de ti…lembro-me muitas vezes de ti mesmo tendo saído de perto há breves minutos.
Nem sempre nos despedimos de forma calorosa nem de noites de afago. Por vezes há espinhos, amuos e inusitadas exigências, incontestáveis expectativas quebradas.
Ainda não aprendi a amar-te sem te cobrar a perfeição mesmo sabendo que a perfeição não existe.
Chove agora, chove bastante…tinha saudades do tamborilar da bátega de água e do cheiro da terra encharcada que apanhada de surpresa ainda sossegada do cantar do estio ,se derrama atolada da enchente que o céu dá.
Tenho uma absoluta avidez pela tua pele, pelo teu corpo junto do meu, o toque que me conforta e seduz passados os dias, os meses, os anos. Na mais das vezes não sei existir sem ti, sem a certeza de que existes em mim, no ar que me rodeia, no som que escuto, na memória que beijo ou choro.
Não sou sempre feliz, sim, não…há alguém que seja? Li demasiados romances para acreditar, e criei o mundo em que era possível a limpidez do sentir sempre sorriso. A vida encarregou-se de me dar outro caminho de ver e entender e não a queria ter vivido doutra forma.
Também eu cheguei ao Outono da minha vida. Tenho um fruto maduro e suculento e raízes em terra firme . Não perdi ainda a asa do sonho e continuo a achar que vou viver para sempre e que ainda falta tanto. Ingenuidade…
Na trama, na teia, na tela, na vida, não imagino não estares…ou melhor minto, imagino e não gosto do que vejo e mais ainda não quero. Não és o molde da minha fantasia mas ensinas-me e provas-me a cada dia que o Amor é barro vermelho e que na roda de oleiro do tempo, só a duas mãos se cria a forma.
Não sei explicar este sentir e talvez por isso tenha deixado de o tentar escrever.
Outras vezes, esta vez, caíram-me as palavras da mente do coração directas ao papel e só tive de ter cuidado para que não atropelassem na ânsia de serem impressas.
Quero-te junto a mim sem prazos definidos, sem a tortura da espera, sem a ilusão da quimera.
Amo-te, em todas as estações…


