quarta-feira, 14 de agosto de 2013

Sente

Sente que tenho a boca cerrada
 os lábios pregados num jeito de atado
 sustendo a verdade à muito encontrada
 escondendo o tesouro de todos guardado

Sente que tenho nas mãos teu olhar
 que me inquieta, entontece, me deixa perdida
 o lago mais doce em que eu fui mergulhar
 e encontrar os milagres de uma era esquecida

Sente que tenho no meu corpo a tremura
 de vencer a lei que teimam desenhar
 a matéria não é feita de carne nem cura
 o meu sangue evapora em cada beijar

Sente o que eu sou e por mais não te minto
 que a loucura levou-me para céus de cetim
 e todas as dores e cores com que pinto
 são a tela mais bela de ti e de mim

 Sente que o tempo deixou de existir
 que a magia afinal não é só ilusão
 e que toda a minh'alma e mais meu sentir
 não cabem jamais na palavra paixão...

Sente... (poema publicado em Livro - Arquivo na Bliblioteca da Casa de Fernando Pessoa)