sexta-feira, 25 de outubro de 2013
Ausência
Sombra...
Presença intemporal do que um dia era forma...
Retalhos da memória, películas guardadas num lugar tantas vezes sem endereço...
Diluem-se os traços do rosto
Esfarelam-se em pó as sensações da pele como paredes despidas das tintas coloridas que inundavam o nosso amor
Vazias as janelas do olhar sobre as searas douradas ou de onde escorria a chuva que regava a paixão do interno
Vazios são agora os espaços onde bebíamos os beijos e saciávamosa sede de ser um só corpo em fusão
Sombra...
É toda a marca que resta...difusa, disforme, quase sem nome...
O tempo da tua ausência é a dor estampada na casa dos nossos sonhos.
Dos sonhos em que perdíamos a noção do tempo e do espaço.
Vazia...sobra...sombra...
Tempo sem tempo.
Ausência...
quinta-feira, 5 de setembro de 2013
Refúgio
Refugio-me no silêncio das lágrimas enxugadas...
O quente das memórias de um passado não me permite destravar a língua em palavras de quimeras.
Cansaço,
resta-me nas mãos de tantas tentativas de crer que em cada verso trocado, perfume ousado, pensamento sintonizado, declarar enfim que encontraria o meu porto seguro...
Vagueando, vagabunda de essências ilusórias, deixo-me levar pelos rastilhos dos sonhos que me permito contagiar por inconfessados desejos de reflexo...amar-me muito eis a questão...
Depois por vezes a vida acontece mais rápido e os dias parecem ter menos horas que o costume quando em tempos me embalava no entediamento dos nadas que me vestem...
Parece que ando sempre a saltar em 'bakstages' de diferentes peças onde não consigo assumir em pleno a personagem que sonho ser...
Distraio-me com dificuldade pela falta de identificação, que mais do que aprovação é o que a dita maturidade me trouxe como destino...
Resultados tenho...a cada dia menos medo tenho de encontrar as paredes vazias que habitam o que chamo casa, a falta de vozes e risos que perspectivo quando me lanço em poemas de amor...
E transformo-me em silêncio e tempos...
Os compassos em que danço as quietudes com me apaziguo dentro do sistema complexo dos meus medos e anseios...
Tenho alturas em que penso que devo estar a cegar, pela falta de sentir a luz que me ilumine nem que seja aquele mais recôndito dos meus sentidos e me faça escrever por fim, de novo a minha essência, sangue de veias entupidas de tempos que não são reais...
Parar de pensar não posso, ninguém o é capaz...
Embrulho-me em papéis de fantasia, sorrisos que ofereço pela evidência do contágio que me dará uma visão menos ocre dos fotogramas diários das vivências...
Mergulho dentro de mim e é aí que me encanta e cativa a quase ausência de ar e ruído que me dá a tal sensação de paz perto da inexistência...
Parágrafo...
quarta-feira, 14 de agosto de 2013
Sente
Sente que tenho a boca cerrada
os lábios pregados num jeito de atado
sustendo a verdade à muito encontrada
escondendo o tesouro de todos guardado
Sente que tenho nas mãos teu olhar
que me inquieta, entontece, me deixa perdida
o lago mais doce em que eu fui mergulhar
e encontrar os milagres de uma era esquecida
Sente que tenho no meu corpo a tremura
de vencer a lei que teimam desenhar
a matéria não é feita de carne nem cura
o meu sangue evapora em cada beijar
Sente o que eu sou e por mais não te minto
que a loucura levou-me para céus de cetim
e todas as dores e cores com que pinto
são a tela mais bela de ti e de mim
Sente que o tempo deixou de existir
que a magia afinal não é só ilusão
e que toda a minh'alma e mais meu sentir
não cabem jamais na palavra paixão...
Sente... (poema publicado em Livro - Arquivo na Bliblioteca da Casa de Fernando Pessoa)
sexta-feira, 24 de maio de 2013
Ecos mudos
Não sopra o canto do teu canto em que cantavas
essa história que contaste noutro dia
num daqueles em que o tempo não sorria
mas que em meu peito era luz e lá brilhavas
E eu dizia num múrmurio assobiado
que era amor o tesouro que guardava
e não restava gesto ou acto em que provava
que tu em mim eras mui mais que um triste fado
Mas a estrela, alva guia que me embala
não sorria ao caminho esperançado
nem à mão que pedia um tal momento
Fechou-se a lua, qual vestido numa mala
Trancou-se assim o sentir a cadeado
e nestas linhas sobram laivos de lamento...
essa história que contaste noutro dia
num daqueles em que o tempo não sorria
mas que em meu peito era luz e lá brilhavas
E eu dizia num múrmurio assobiado
que era amor o tesouro que guardava
e não restava gesto ou acto em que provava
que tu em mim eras mui mais que um triste fado
Mas a estrela, alva guia que me embala
não sorria ao caminho esperançado
nem à mão que pedia um tal momento
Fechou-se a lua, qual vestido numa mala
Trancou-se assim o sentir a cadeado
e nestas linhas sobram laivos de lamento...
terça-feira, 14 de maio de 2013
Antes
Antes tinha jeito para escrever. Antes de ti. Tinha sempre aquele vazio incómodo que transformava optimista em sonho ou flagelo vivido e então depositva tudo com fervura na página branca. Sabia que assim tinha companhia, que ah, que bem que escreve, que hum, que bem que versa.
Todas as fases de vida em que amo, deixo de ter veia para a escrita. Ou veia, ou vaso, ou tempo, ou queda, ou algo que não sei explicar.
Dizes-me agora, escreve sobre a vida que tens...e eu penso...eu não sei escrever sobre a realidade porque a minha palavra é moda de fantasia, ou a não ser, é fruta proibida e apetecida da vontade de um 'tu' que não exisitia ainda.
Por isso, deixa-me silenciar as angústias da vida antes com beijos que com versos...já fiquei para poeira doutra forma, deixa-me agora ser éter contigo...
Todas as fases de vida em que amo, deixo de ter veia para a escrita. Ou veia, ou vaso, ou tempo, ou queda, ou algo que não sei explicar.
Dizes-me agora, escreve sobre a vida que tens...e eu penso...eu não sei escrever sobre a realidade porque a minha palavra é moda de fantasia, ou a não ser, é fruta proibida e apetecida da vontade de um 'tu' que não exisitia ainda.
Por isso, deixa-me silenciar as angústias da vida antes com beijos que com versos...já fiquei para poeira doutra forma, deixa-me agora ser éter contigo...
quarta-feira, 3 de abril de 2013
Olhar
Guardei já todas as letras
as tontas das palavras foscas
todas me parecem toscas
perante o pardo do tempo
de nada me adiantaram
as letras que com o tempo voaram
translúcidos teoremas
nem esses mesmo
os poemas
tudo o que tenho dito
registado foi e fechei
encerrei assim expediente
obediente que sou
ao sonho que em mim guardei
acordei
fiz em mim concordância
que nem toda ou qualquer distância
fariam do esquecer meu tormento
lamento
nem isso
por isso
o que resta por dizer
não o mancho mais decerto
aqui ou noutro lugar
as letras que te resguardo
só em mim as vou guardar
e a menos que visites
a alma outroura pintada
resisto segura e quieta
como uma pálpebra aberta
o meu amor está no olhar....
as tontas das palavras foscas
todas me parecem toscas
perante o pardo do tempo
de nada me adiantaram
as letras que com o tempo voaram
translúcidos teoremas
nem esses mesmo
os poemas
tudo o que tenho dito
registado foi e fechei
encerrei assim expediente
obediente que sou
ao sonho que em mim guardei
acordei
fiz em mim concordância
que nem toda ou qualquer distância
fariam do esquecer meu tormento
lamento
nem isso
por isso
o que resta por dizer
não o mancho mais decerto
aqui ou noutro lugar
as letras que te resguardo
só em mim as vou guardar
e a menos que visites
a alma outroura pintada
resisto segura e quieta
como uma pálpebra aberta
o meu amor está no olhar....
quinta-feira, 7 de março de 2013
A melodia da água no crepitar da lareira
Escorria assim, pinguejando como um relógio isolado sem tempo ou de tempo etéreo na perseverança dos sentidos...os olhos baços seguravam a imagem da cinza a envolver os toscos modelos de madeira que se consumiam na ardência do desejo...
'É inútil', pensava, enquanto beberricava o chá amarelecido das camomilas tranquilas do fim de tarde de inverno, naquela sala aconchegada com presença ímpar, mas sentindo-se toda ela um só pensamento.
'Não posso mais continuar a fingir que não sinto', concluia acalentada pelo lume que lhe braseava as pernas...'mas afinal o que fazemos quando não podemos fazer mais nada?'...
E a água continuava como orquestra de fundo lembrando a presença do elemento de passagem eterno, a metamorfose contínua do viver...serenava...às vezes é bom saber que tudo se alivia...
'Até quando, até quando vou conseguir segurar a presença do teu aroma e evitar que o teu beijo seja o veneno tatuado no meu sangue? Até quando vou suster esta vontade de te ter pousado em mim como uma brisa sussurrada mas que me abala as estruturas como um tornado devastando tudo dentro do meu corpo, da minha alma e do meu pensamento? Até quando vou deixar que a descrença não me vença, e que o ciúme não me domine e que as balas de prata fiquem guardadas ao invés de serem engatilhadas subtilmente em algumas das palavras que te atiro? Até quando vou resisitr à tua permanente ausência, aos intervalos a que me instigo, vil resistência que até casta e fiel me torno'...farejo o amor em cada poro e resvalo por mim abandonando-me à prostração dos devaneios e olho pela janela...
À minha frente uma janela...através dela suspeitos aromas de eucalipto que adensam o entardecer na estalagem de romances...ali me rendo ao enternecimento e entorpecimento do meu interno dilema...
A meu lado, o crepitar da lareira que me zumbe que a paixão é um fogo que respiro...ao meu redor, a melodia da água que me assegura que o sentir não passa de uma corrente de rio e que como todos os rios, também este partirá para sempre, ao encontro do mar do nunca....
'É inútil', pensava, enquanto beberricava o chá amarelecido das camomilas tranquilas do fim de tarde de inverno, naquela sala aconchegada com presença ímpar, mas sentindo-se toda ela um só pensamento.
'Não posso mais continuar a fingir que não sinto', concluia acalentada pelo lume que lhe braseava as pernas...'mas afinal o que fazemos quando não podemos fazer mais nada?'...
E a água continuava como orquestra de fundo lembrando a presença do elemento de passagem eterno, a metamorfose contínua do viver...serenava...às vezes é bom saber que tudo se alivia...
'Até quando, até quando vou conseguir segurar a presença do teu aroma e evitar que o teu beijo seja o veneno tatuado no meu sangue? Até quando vou suster esta vontade de te ter pousado em mim como uma brisa sussurrada mas que me abala as estruturas como um tornado devastando tudo dentro do meu corpo, da minha alma e do meu pensamento? Até quando vou deixar que a descrença não me vença, e que o ciúme não me domine e que as balas de prata fiquem guardadas ao invés de serem engatilhadas subtilmente em algumas das palavras que te atiro? Até quando vou resisitr à tua permanente ausência, aos intervalos a que me instigo, vil resistência que até casta e fiel me torno'...farejo o amor em cada poro e resvalo por mim abandonando-me à prostração dos devaneios e olho pela janela...
À minha frente uma janela...através dela suspeitos aromas de eucalipto que adensam o entardecer na estalagem de romances...ali me rendo ao enternecimento e entorpecimento do meu interno dilema...
A meu lado, o crepitar da lareira que me zumbe que a paixão é um fogo que respiro...ao meu redor, a melodia da água que me assegura que o sentir não passa de uma corrente de rio e que como todos os rios, também este partirá para sempre, ao encontro do mar do nunca....
quarta-feira, 23 de janeiro de 2013
(Re)vivênicias
Revia todas as manhãs, tardes, noites, horas do nada, do tempo morto, vazio, as lições que as outras vidas ou histórias de fantasia lhe conferem, a juntar à sua...
Repetia o gesto, a palavra soberana, a fórmula certa, a chave, aquilo que julga entender e que intuitivamente entende a cada primeiro olhar cruzado...
Olha-se ao espelho, conta rugas, linhas em que se desdenha e que de pronto se corrige...foi vida...
Desde cedo tivera essa tendência, que alguns ajuizariam de narcísica de se olhar ao espelho...não para o corpo que assumiu já tantas formas, mas para o rosto especialmente...para a boca de lábio grosso, o nariz orgulhosamente empinado e enfim o manifesto reflexo da sua alma...os olhos avelã, de pestana parca e brilho dependente do estado do sentir...queria manifestamente, desde a primeira vez que tomou consciência desse gesto, decorar a sua cara em cada idade...ao ver-se hoje a entrar na barra da idade mais que madura, teórica, ainda se vê adolescente, apaixonada, noiva, casada, grávida, amante extasiada, desgostosa, só...como é possível desenlear filmes atrás de filmes em projecções de memórias ao olhar um rosto ao espelho...
Perde a conta do tempo, basta pouco para ser tanto e diz a si mesma, na voz inequívoca de Deus dentro, palavra de coração que a eterna questão que se coloca não tem fim...
Por teres nascido com asas, seria evidente que te enamorarias eternamente por pássaros...
Gostas de gaiolas? Não...pois não...nem nas douradas te manténs...
Então porque teimas em agrilhoar o sentir ao evidente equívoco de possuir?...
Se tu não és, nem nunca serás de ninguém para sempre, se já te levantaste após lamberes o corpo e a alma em feridas lancinantes, se constatas que tudo volta a acontecer, afinal o que julgas ter perdido quando te questionas olhos nos olhos contigo mesma?
O amor és tu...convence-te...
Repetia o gesto, a palavra soberana, a fórmula certa, a chave, aquilo que julga entender e que intuitivamente entende a cada primeiro olhar cruzado...
Olha-se ao espelho, conta rugas, linhas em que se desdenha e que de pronto se corrige...foi vida...
Desde cedo tivera essa tendência, que alguns ajuizariam de narcísica de se olhar ao espelho...não para o corpo que assumiu já tantas formas, mas para o rosto especialmente...para a boca de lábio grosso, o nariz orgulhosamente empinado e enfim o manifesto reflexo da sua alma...os olhos avelã, de pestana parca e brilho dependente do estado do sentir...queria manifestamente, desde a primeira vez que tomou consciência desse gesto, decorar a sua cara em cada idade...ao ver-se hoje a entrar na barra da idade mais que madura, teórica, ainda se vê adolescente, apaixonada, noiva, casada, grávida, amante extasiada, desgostosa, só...como é possível desenlear filmes atrás de filmes em projecções de memórias ao olhar um rosto ao espelho...
Perde a conta do tempo, basta pouco para ser tanto e diz a si mesma, na voz inequívoca de Deus dentro, palavra de coração que a eterna questão que se coloca não tem fim...
Por teres nascido com asas, seria evidente que te enamorarias eternamente por pássaros...
Gostas de gaiolas? Não...pois não...nem nas douradas te manténs...
Então porque teimas em agrilhoar o sentir ao evidente equívoco de possuir?...
Se tu não és, nem nunca serás de ninguém para sempre, se já te levantaste após lamberes o corpo e a alma em feridas lancinantes, se constatas que tudo volta a acontecer, afinal o que julgas ter perdido quando te questionas olhos nos olhos contigo mesma?
O amor és tu...convence-te...
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